
Sei que José Saramago era ateu, contudo, em sua obra
Caim, demonstra mais uma crítica ao Deus que os pregadores “cristãos” difundem do que ao próprio Deus em si. O Deus a quem devemos temer, o rancoroso, vingativo Deus. O que enlouquece pessoas.
Certamente que sinto sua ironia na própria referência que faz a Deus, como uma opinião pessoal sobre a existência de algo que é extremamente contraditório, impossível de existir. Em certos momentos ele desdenha das contradições escritas na Bíblia (contradições realmente existentes, já que foi um livro reescrito e reimpresso inúmeras vezes). Compara Deus a Lúcifer como se este último soubesse da maligna natureza do outro.
Olha só uma das passagens do texto onde trata o homem como um repetidor de histórias antigas, sem fundamentos concretos, e como sabemos, a história sempre modifica cada vez que é passada.
[...]Por motivos que não está nas nossas mãos elucidar, simples repetidores
de histórias antigas que somos, passando continuamente da credulidade mais
ingénua ao cepticismo mais resoluto[...]
Informa também uma crença ingênua nesse Deus, onde exemplifica ao longo do livro que de nada tem Deus de misericordioso, pois os inocentes sempre pagaram pelos pecadores, como se a justiça divina não poupasse ninguém.
[...]onde para deus a justiça é uma palavra vã [...]
Gostei da narrativa, da ironia, da desenvoltura ao propagar sua opinião sem ofender religião específica, apenas contrariando as crenças humanas. Existe sexo em Caim, traição, homossexualidade, pecados dos mais grotescos que sempre ocorreram no mundo humano. Por exemplo o tratamento que damos aos animais, e a falta de diálogo que temos com o próximo.
[...] Diz-se então que o asno é teimoso como um burro quando, afinal, do que se trata é de um problema de comunicação, como tantas vezes sucede até entre os humanos. [...]
A história é contada desde o nascimento (realmente sem pé nem cabeça) de Adão e Eva, onde não tem base que fundamente a teoria, e segue-se de uma sequência de contradições, até a Arca de Noé onde Caim ultrapassa o presente, passado e futuro.
Gostei e recomendo. Não estou dizendo que o ateísmo de Saramago passou pra mim. Apenas gosto de coisas que questionem a ordem das coisas existentes. Isso nos faz refletir. Para que não saiamos por aí, falando besteiras aos quatro ventos, sem base, acreditando num livro que já foi sagrado, mas hoje não passa de adaptações religiosas em que você - como ser racional e pensante – deve tirar suas próprias conclusões, e não deixar-se manipular sem questionar.
Atualmente estou lendo
Quando Nietzsche Chorou